abril 04, 2005

Dois conceitos de «parolo»

Dois amigos meus escreveram nestes últimos dias sobre parolice e o ter apreciado os dois textos deixou-me um pouco baralhado, se bem que saiba que o «Mag@nice» não escreveu hoje a responder ao «Blogoperatório» da passada quinta-feira.

parolo (segundo «Mag@nice»)
Hoje, pela manhã, rua abaixo, fui ouvindo o chilrear dos passarinhos que apesar do tempo de trovão andavam na sua troca de impressões, na sua azáfama. Aqui na aldeia há dois ou três caçadores mas que se dedicam à prática do abate desportivo noutras paragens. Já não se vê putos com fisgas e muito menos com espingardas de pressão de ar. Portanto, as aves que arribam acham a aldeia tão segura, aprazível, possuída pelo silêncio, que acabam por assentar arraiais. Este ano estou farto de ver pássaros conhecidos, pássaros que gostaram tanto da forma afável como foram acolhidos que se fixaram à terra.

Hoje, pela manhã, em conversa com um deles...

sabes o que mais me agrada nesta aldeia é o mar a bater-lhe na face são as ruas ladeadas por plátanos formando um corredor sem fim os pinheiros os eucaliptos e a gente poder esvoaçar sem ser perseguido a terra é farta ninguém está à espera dos subsídios que substituem a chuva a gente é trabalhadeira muito metida consigo já todos têm frigorífico televisão telefone carros à porta

Tens razão, disse-lhe eu, é impagável este lugar rico em bem-estar e silêncios. Mas olha, tem cuidado que o diabo espreita sempre atrás da porta e não vá aparecer-te um gato, desses vadios, e que te dei-te as mandíbulas às coxas.

Circula livremente, mas mantém um olho no burro e outro no moleiro. Já agora deixo-te um conselho: se fores à cidade que está aqui ao lado não te percas. Vai só de visita, mas não te esqueças que aqui na aldeia é que tens a tua tranquilidade. Faz como eu: torna-te um pouco parolo.

Reparti com o passarinho um pedaço de broa; para mim as côdeas, para ele o miolo, sim porque o melhor deve ser sempre para os amigos. Fomos juntos às amoras e depois combinámos encontro para outro dia. Entretanto a ti Ana do moleiro aproximava-se e perguntou:
- Com quem estás a falar menino?
- Com os meus botões ti Ana...

Todos nós devemos ter um pouco de parolo. Não é maganice.


Parolos aos molhos (segundo Blogoperatório)

O mal de Portugal é a elevada percentagem de parolos. Há parolos em todo o lado e em todas as áreas de intervenção.

Há parolos candidatos a parolos. Há parolos eleitos pelo povo. Há parolos nas elites. Há imensos parolos no parlamento. E aí é um bocadinho chato, porque é lá que se decidem muitas das parolices que nós depois temos que suportar.

Também há os parolos que não permitem que algo "não parolo" se afirme. Isso acontece porque há imensos parolos com imenso poder. Pode ser que as coisas mudem um dia, mas vai ser difícil. Os parolos tem uma camada muito fina de parolice que lhes cobre todo o corpo, cobre-lhes os olhos e atrofia-lhes o cérebro. Os parolos não serão propriamente estúpidos, são apenas parolos, pronto, é outra coisa, muito difícil de definir mas que se topa à légua.

Enfim, há dias em que os parolos estão mais salientes. Até parece que se organizam entre si para a grande parolada. São os dias parolos. Hoje foi um desses dias. Se é que ainda não tinham percebido.

Publicado por dizerbem em abril 4, 2005 11:05 PM
Comentários

Não, Jorge, não tinha lido o texto e nunca havia consultado o Blogoperatório. Fi-lo neste momento pela primeira vez, movido pela curiosidade da tua observação, mas não foi a última. Portanto, não pode aplicar-se a teoria usada pelo povo da aldeia quando visita um sítio de que não gosta: só lá fui duas vezes: a primeira e a última. Considero-me, a partir de hoje, incluído na lista de leitores do Blogoperatório.
O resto da resposta pode ser lida no Maganice.

Afixado por: Luís Cruz em abril 5, 2005 06:04 PM